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Não tenho nada contra o trabalho silencioso, diligente e realizado por outras pessoas.
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Terça-feira, Julho 22, 2008
Segunda-feira, Julho 21, 2008
HOMÔNIMOS Tenho, como já disse alguma vez neste blogue, diversos homônimos. Um geólogo marinho, um advogado, um fotógrafo, um músico. Nenhum deles me incomoda, exceto um – o poeta. Alguém pode me procurar no Google, buscando um escritor, e esbarrar nesse cara. Como ele é péssimo, há uma possibilidade real de que desistam de me contratar. Minha primeira estratégia foi a seguinte: Com a batalha no Google irremediavelmente perdida, registrei-me na Wikipedia. E criei uma entrada pra mim. Resultado: o corpo de editores vetou-me sob a justificativa de “vaidade do autor”. Eu disse a eles que não se tratava de vaidade. Não quiseram saber. Por expressivos treze votos a zero, meu verbete sobre mim mesmo caiu. De fato, eles têm razão, não tenho relevância enciclopédica. Mas fiquei puto assim mesmo. Voltei ao Google e entrei na página de cada um dos meus homônimos. Meu propósito era bem claro – bagunçar o coreto. Nos comentários, eu escrevia: “Olá. Temos o mesmo nome. Que legal. Que bacana. Visite meu site.” Colocava a assinatura e o link para a página de outra pessoa. Assim, progressivamente, coloquei todos os meus homônimos em contato. E, naturalmente, não coloquei o meu endereço e nem mesmo o deste blogue. Ausentei-me furtivamente da conexão. Resumo: agora não sou só eu que sofro por saber que existem tantos homônimos. A esta altura, todos já devem se conhecer. E, muito possivelmente, todos já devem se odiar. Mutuamente. Sexta-feira, Junho 20, 2008
Pessoal, realmente não tenho atualizado este treco. Enquanto nada acontece por aqui, aproveitem para ler o blogue do Paulo Torres. De humor nerd a notícias de macaco, vocês encontrarão tudo lá. Vão lá, pessoal. Vão lá, que é legal. Sábado, Maio 03, 2008
BOLETIM DE OCORRÊNCIA POLÍCIA CIVIL 1º DEPARTAMENTO DE POLÍCIA DA CAPITAL DELEGACIA DE PLANTÃO – SECCIONAL SUL Tipo de pessoa: Física Cod. Natureza: C01155 Tentado/Consumado: Consumado Sexo: Masculino Tipo de envolvimento: Vítima de ação criminal/cível Descrição Natureza: FURTO Nome Completo: PEDRO MATTA MACHADO MAFRA DUQUE ESTRADA MEYER Histórico da Ocorrência Senhor Delegado, o solicitante comparece a esta unidade policial para relatar que: estava no apartamento de seu amigo, Guilherme Cruz Lessa, e na hora do fato tinha dirigido-se à piscina do prédio; que após um mergulho cochilou no salão de festas, que fica próximo à piscina; que quando acordou percebeu que suas vestes haviam sido furtadas de seu corpo; salienta que havia feito uso de bebidas alcoólicas o que fez que o seu sono ficasse um pouco mais pesado; o Guilherme, esclarece que por volta de meia hora antes do incidente, havia discutido com o síndico do prédio a respeito de problemas na administração do condomínio; que após encerrar a conversa com o síndico, começou a procurar o Pedro pelo prédio, chegando a imaginar que este havia evadido; que quando retornou ao playground deparou com o síndico conversando com uma faxineira a respeito de suposto homem que encontrava-se nu no local; que descobriu que tratava-se de seu amigo, e este ao acordar e perceber que estava sem as vestes dirigiu-se a um banheiro próximo, onde refugiou-se; que a faxineira narrou que o viu caminhando em direção ao banheiro tampando as partes com as mãos, porém o síndico insistia que ela dissesse que Pedro havia feito gestos obscenos e exposto suas partes deliberadamente. Diante do exposto solicito providências. Quinta-feira, Abril 24, 2008
KEY BILL – Vol.3 O Movimento Antimanicomial só beneficia os pobres. Doidos ricos não acabam em hospícios. Tem sempre alguém pra cuidar deles – um parente desocupado, um amigo interesseiro. Alguém. Nos casos extraordinários em que ninguém se dispõe, a família compra um apartamento pequeno e joga o sujeito lá. Pra ver o que acontece. Se nada acontecer, ótimo. Talvez ele nem seja doido. O prédio onde eu moro será considerado um lugar normal até o dia em que, tomado por labaredas, fizer as manchetes trágicas do dia. São tantos apartamentos e pessoas, que é dificílimo dizer quem não é doido. Ninguém controla o entra e sai, não existem câmeras. É o faroeste. E, muito naturalmente, a regra é ter cautela no elevador. Quando me mudei pra cá, o síndico quis me alertar. “Fica esperto. Esse prédio tem gente violenta...” Mas eu não estava prestando atenção direito, porque ele cuspia em mim enquanto falava. Desnecessário dizer que, desde então, eu o evito. Não só pelos cuspes ou pelo cavanhaque espesso e ridículo. Ou pelos aros retardados dos óculos. Ou pela moto envenenada de garotão. Odeio síndicos. Todos os síndicos. Em geral. Globalmente. Pelo que estou sabendo, a palavra síndico vem de ‘procurador’. Ou seja, o síndico é uma pessoa que procura qualquer fiapo de poder e, quando acha, cuida logo de trepar. Ainda outro dia, eu estava saindo e o procurador daqui me chamou num canto. “Eu sei que você tem um gato.” “O gato não incomoda. Não faz barulho. Ninguém sabe que existe.” “Eu sei. No regimento do condomínio, animais de estimação são proibidos.” “O senhor vai confiscar o meu gato?” “Não. Só estou falando porque, se alguém reclamar, eu não posso fazer nada.” “Senhor síndico, se o senhor tirar o meu gato, nós vamos passar juntos em cada apartamento desse prédio recolhendo os aquários.” O síndico sorriu desconfortável. Sorriu ridículo. “Qualquer tigela, qualquer copo ou penico. Por menos suspeito que pareça, a gente vai confiscar.” Não sou um condômino fácil, faz bem reconhecer. Inadimplente habitual e compulsivo, não pago na data de jeito nenhum. Não por falta de grana – por princípio de prazer. Adoro, simplesmente adoro não pagar. Não me importo com as multas: pago-as todas, religiosamente. Sempre muito depois da data de vencimento. Além disso, faço barulho, recebo amigos e promovo eventos moralmente questionáveis. Sou o recordista absoluto de entradas no livro de reclamações. Por volta de vinte e três. Recebi, recentemente, uma carta de notificação, bastante ameaçadora por sinal. Se entendi direito, posso ser processado a qualquer momento. (O que não é tão mal, já que muita gente só se dá bem na vida depois de um processo.) * * * Não foi nem o barulho que eu faço, nem o hobby da inadimplência, nem qualquer tipo de retaliação judicial. O motivo do meu atropelamento em plena garagem permanece obscuro. Fui agredido sem entender a razão. Na hora em que aconteceu, eu estava dando direções para outra pessoa estacionar. “Mais pra esquerda. Mais pra direita. Vira. Desvira” E vi um Fox prateado aparecendo do nada. Fiquei parado, terminando de dar as instruções. Acreditando que o bom senso faria o Fox esperar. O Fox acelerou. Tentei pular, desviar, mas tomei uma pancada no quadril. Não foi uma pancada muito forte. Só o suficiente pra me jogar no chão. Por causa dos vidros escuros, não consegui ver o sujeito, que saiu cantando pneu garagem abaixo. Rumo ao térreo. Enlouquecido de ódio, levantei e saí correndo atrás. “Volta aqui, filha da mãe! Volta aqui, desgraçado!” E, no andar de baixo, o Fox obedeceu. O Fox parou. Abriu-se a porta do motorista e apareceu o agressor. O mesmo cara que, dias antes, tinha bloqueado o meu táxi na porta da garagem. “Que foi?” – ele perguntou, arfando, arregalado. “Como assim, que foi? Você me atropelou, babaca.” “Você é doido, cara?” “O quê?” “Você é doido?” Uma pergunta estranha, se eu sou “doido”. Não sei, acho que não. Enquanto eu pensava na resposta, indeciso em relação à pergunta e à pertinência da pergunta, ele completou: “Porque eu sou muito mais doido que você.” E, em seguida, veio a cereja do bolo: “Palhaço!” Deu uma gargalhada vil e entrou no carro. É claro que eu pensei em falar: “Quer dizer que você é doido? Então, come cocô. Rasga dinheiro. Bebe groselha de ponta-cabeça.” Mas não tive o espírito. Fui abandonado à minha própria raiva. Ao meu orgulho dilapidado. À minha alma de pessoa completamente atropelada. Nada é mais humilhante do que ser atropelado. Nada é mais humilhante do que ser atropelado propositalmente por um cara muito mais doido que você. Pensei em denunciá-lo ao condomínio. Mas lembrei que teria de conversar com o sindico e desisti. Fiquei a noite toda pesquisando sobre pessoas famosas que morreram atropeladas. E quer saber? Não existem. Morrer atropelado é tão humilhante que a família do morto prefere dizer que foi câncer. Com o síndico fora de questão, voltei-me ao porteiro. “Porteiro, quem é o cara do Fox?” “Um maluco aí.” “E ele vai atormentar as pessoas até quando?” “Não sei. Outro dia mesmo ele andou atormentando o síndico.” “Como?” “O síndico tava saindo de moto do prédio e ele disse: olha o moto-boiola!” “É mesmo?” “É.” “Que coisa...” Pois é. Que coisa. Cada coisa. São essas coisas que fazem a gente parar pra pensar. Durante os meus vinte e nove anos de vida, sofri uma fauna de humilhações. Já baixaram as minhas calças no recreio; já me borrifaram a goela com extintor de incêndio; já me socaram e chutaram até que eu ficasse inconsciente; já me atropelaram de propósito. Mas eu jamais me vinguei. E perceba a entonação, cada vez mais forte: jamais! É que sempre aparece um bom motivo pra esquecer. E uma boa frase de efeito justifica qualquer bondade. “Olha o moto-boiola” certamente justifica. Sexta-feira, Fevereiro 08, 2008
Às desculpas por não continuar a série, vou acrescentar que escrever é como jogar futebol: ou você está em forma e joga, ou não está e fica no banco. Acabo de xingar mais um desses anônimos que vêm aqui reclamar da falta de textos. Só olhar na caixinha de comentários anterior. “Você tem outras coisas pra escrever” - disse uma amiga. Tenho mesmo. 1 – A Hora do Primeiro Tiro, a.k.a. Jordânia, foi agraciado com o prêmio de melhor vídeo na Mostra de Tiradentes. Estamos, todos nós, em estado de tremelique sensual, especialmente o especialíssimo senhor diretor, cuja alcunha agora abunda no Google. 2 – Houve uma incrível reviravolta de eventos na trama de Key Bill, o que me obrigou a apagar tudo que já tinha escrito – eis mais um motivo para a demora. 3 – Existem muitas coisas que não consigo mais mudar no template desta joça. Incluídas as referências escatológicas do link para os comentários e a assinatura “Natalino, a gifted person”. Esoterismos à parte, é mesmo coisa do destino, já que tenho me envolvido em muitos projetos natalinos. Me chamaram, ainda outro dia, de Senhor Natal. Achei curiosa a relação. 4 – Kimi vai ser bi. Ouçam-me. Segunda-feira, Setembro 10, 2007
KEY BILL – Vol. 2 Uma boa frase de efeito justifica qualquer maldade. É o que vou deixar de presente na lataria brilhante do carro prateado. Uma frase pujante, de formas irreprocháveis. Em cujo ponto final, ficará cravada a minha espada de vingança. Enterrada e incrustada na carcaça de metal. Inclemente. Como uma Excalibur à espera do rei. * * * Proponho que falemos sobre a qualidade da vingança. A temática é séria e reclama postulados mais sérios ainda. Pelo conteúdo filosófico que carrega, faz-se ramo intransigente do pensamento humano. Não suporta amenidades. Os antigos ensinam que a vingança amena é uma vingança que não se cumpriu. Algo como um suicídio frustrado ou uma zebra que nasceu sem listras. A verdadeira, a honesta vingança deve ter contornos sempre fortes. Deve ter motivos épicos, execução lírica e forma final dramática. Começarei tratando aqui dos primeiros. Dos motivos épicos. Das razões da vingança, cujas ocasiões foram duas, bem distintas uma da outra. A primeira, numa sexta-feira à noite. Quando o interfone tocou, ela ainda estava se arrumando no banheiro. Eu atendi e o porteiro avisou que era o táxi. “O táxi está lá embaixo. Vamos?” “Mas já?”, ela perguntou cinicamente. Não me dei ao trabalho de responder, em sinal de protesto. “Mas que horas são?”, ela prosseguiu com o cinismo. “Anda logo. Vamos chegar atrasados de novo.” “Estou terminando a maquiagem.” “Quem repara em maquiagem numa peça de teatro?” “Todo mundo.” “Não dá pra reparar. Fica tudo escuro.” “Antes de começar, não fica.” “...” “Depois de terminar, não fica.” “Entendi. Agora podemos ir?” “Você sempre me apressa!” “Eu sempre te apresso porque você sempre nos atrasa.” “...” “Percebe a ironia?” Ela sai contrariada do banheiro e vai enfiando as tranqueiras na bolsa enquanto eu a conduzo pela nuca para fora do apartamento. Ela acha que é um carinho, a pegada de nuca. Não é. Em poucos segundos, já percorremos toda a extensão do corredor. “Vai dar tempo, pode confiar.” “Não sei.” “Pegou os ingressos?” “Peguei.” “Está levando dinheiro?” “Não. Você está?” “Estou.” “Ufa...” “Sempre sou eu que pago as coisas, percebe a ironia?” “A ironia, eu percebo. As coisas que você paga, não.” “Todas as coisas, ué.” “Menos os ingressos que a gente joga no lixo quando chegamos atrasados.” “Nós vamos chegar a tempo!” “A tempo de convencer o bilheteiro a nos deixar entrar…” “Chega desse papo. Já está enchendo.” “Chega por quê?” “É um favor que você me faz.” “Ganho um vale-massagem se eu parar?” Ela topa. Eu paro. E me permito divagar, embora brevemente. Toda relação precisa de vales. As heterossexuais, pelo menos. Porque o que falta de memória ao homem, sobra à mulher na forma de cobrança. Eis o pressuposto número um: a mulher sempre cobra mais do que o razoável. Não se trata de uma regra, mas de uma via de regra. Uma generalização que, conquanto pareça infundada, pede grafia em itálico e reforço com negrito. A mulher cobra do homem um constrangedor afeto de novela. E não só afeto. Cobra também cumplicidade cega, dedicação irrestrita, respeito e maturidade. Bem à sua fêmea maneira, a mulher exige do homem mudanças aos bofetões. “Diminua a cerveja. Diminua o videogame. Não gosto de fulano. Diminua o círculo de amizades. Pare de ir ao campo. Reserve o domingo pros encontros familiares. Essa camisa é horrorosa. Vamos ao shopping. Domingo à noite, comigo. Fantástico na cama, comigo.” Se concordar com tudo, convenhamos, o homem perde a noção de si. Se ele não percebe o descompasso a tempo, arrisca virar uma anomalia metrossexual. E para se preservar, deve pressentir o naufrágio da canoa. Deve resolver de algum jeito a questão da inadimplência afetiva, seja criando uma zona de respiro, seja burocratizando a relação. É justamente onde entram os vales. Vale-massagem, vale-vitrine, vale-criticar-a-bolsa-nova, vale-sexo. Sem eles para regulamentar a cobrança feminina, o homem assume cada vez mais demandas e acaba por se tornar uma pessoa sensível, sem personalidade e sem sal. É o fim da divagação. Saibam perdoar. Quando a porta do elevador se abriu, já no hall de entrada do prédio, meu vale-massagem estava na mão, assinadinho. “Posso cobrar hoje?” “Só entra em vigor depois de quatro dias úteis.” “Pena...” Uma cena curiosa tomava lugar na porta da garagem: O táxi que chamáramos estava apontado para a rua. Na direção oposta, bloqueando a passagem, um carro prateado impedia-lhe a saída. Estavam frente a frente, o táxi e o carro prateado. Alguém teria que ceder; alguém teria que dar a ré. Entramos no táxi. “Boa noite.” “Boa noite.” “O senhor pode nos explicar o que está acontecendo?” “Eu entrei com o táxi na garagem para fazer o retorno. Quando ia sair, este carro veio em alta velocidade pra entrar. Quando me viu, freou e parou. Agora estamos aqui.” “Como assim?” “Ele não quer dar a ré.” “Deve ser um condômino. Vou falar com ele. Um minutinho.” Pulo pra fora do táxi, muito confiante, e me aproximo do camarada. Quando ele me vê, começa a fechar a janela. “O que você está pensando em fazer?”, eu pergunto inocente. Evitando contato visual, ele apenas abana as mãos, como se dissesse “não estou para conversa.” Meus olhos buscam o táxi para conseguir orientações. Nem um pio. “Mas não é possível! Ninguém mais conversa na sociedade?” Desenhava-se na minha frente a clássica circunstância do stalemate. Ninguém faz nada. O tempo e o espaço param. O mundo de repente fica estático. “É nesse ponto que chegamos?” O silêncio, apenas. Volto para o táxi, puto da vida, entro e bato a porta. “Dê a ré, por favor. Estamos atrasados e esse cara é um anti-social.” “Se eu não estivesse com passageiros, ficaria aqui pra sempre.” “Dê a ré, por favor.” “Eu sairia do carro, sentaria no meio-fio e esperaria.” “A ré.” “Quero deixar claro que só estou fazendo isso porque vocês estão me pedindo.” “Está claro.” Enquanto o taxista, muito a contragosto, dá a bendita ré, eu noto que tem outro táxi estacionado na calçada do lado de fora. “Aquele taxista ali fora: está fazendo o quê?” “Não sei, vou perguntar.” Damos a ré, desviamos do carro prateado e ele acelera, cantando pneu garagem adentro. Finalmente, depois de quinze minutos, estamos livres. Abandonamos o meio-fio e agora estamos emparelhados com o táxi da rua. Faltam cinco para as nove e praticamente já perdemos o espetáculo. “Você viu esse cara?”, pergunta o outro taxista. “Vi. Ele estava me prendendo na garagem”, responde o nosso. “E você sabe por que ele não te deixava sair?” “Por quê?” “Porque me deu uma fechada no cruzamento ali atrás e quase bateu no meu carro. Aí saiu correndo a uns 150 por hora e eu o persegui até aqui.” “Mas que grande imbecil, hein? Eu só dei a ré porque estou com passageiro.” “Deve ser um filhinho de papai!” “Eu ia sentar no meio fio e esperar aquele filho da puta!” “Motorista, estamos atrasados. Podemos ir agora?” E partimos. Cruzamos a cidade freneticamente, mas não o suficiente para pegar o teatro. Quando o bilheteiro estendeu a mão impedindo a nossa entrada e disse que já tinha começado, eu olhei pra ela. “E aí? Vai pagar?” “Lógico que não. A culpa foi do seu vizinho.” “E que vizinho escroto!” “Estava num Fox prateado, eu lembro.” “Vou procurar saber quem é.” Dias mais tarde, eu me pegava conversando com o porteiro do prédio. “O senhor sabe quem é o louco do Fox prateado?” “Relaxa. Ele vive dando trabalho.” “Imagino, o cara é maluco de pedra.” “Acho melhor nem mexer com ele.” “Não pretendo mexer. Mas por quê?” “Ele é perigoso.” “Entendi.” Mas eu não entendia. Eu não tinha, àquela altura do campeonato, a menor idéia do quanto ele era perigoso. Só viria a descobrir dois meses depois. Da maneira mais dolorosa possível. (…) Quinta-feira, Agosto 16, 2007
KEY BILL – Vol.1 O carro prateado está lá, estacionado na vaga habitual. São quatro horas da manhã e não há sinal de que alguém ainda esteja acordado. Estou sozinho. No escuro. Na garagem. Meu bolso agasalha um molho de chaves, que eu manipulo com a ponta dos dedos. Avalio a lataria do veículo: está lisinha e limpinha. Está lustrosa. Os pneus estão igualmente brilhantes, negríssimos. É visível que o proprietário cultiva uma paixão inexcedível pelo automóvel. Verifico mais uma vez a posição dos elevadores. Um está no décimo segundo andar. O outro, no quinto. Considerando que nenhum desses andares é o do proprietário do carro, estou relativamente a salvo de um flagrante. Meu objetivo: vingança. Sorrateira e meticulosa vingança. *** Eis o meu histórico resumido: Já fui moral e fisicamente agredido um punhado de vezes. Fui agredido quando tinha razão; fui agredido quando não tinha razão. Fui agredido, sobretudo, sem entender a razão. Simplesmente fui agredido. Durante os meus vinte e nove anos de vida, sofri uma fauna de humilhações. Já baixaram as minhas calças no recreio; já me borrifaram a goela com extintor de incêndio; já me socaram e chutaram até que eu ficasse inconsciente. Mas eu jamais me vinguei. Perceba a entonação: jamais! Resignação? Misericórdia? Bondade? Nada disso. Pelo contrário. Sou um fã declarado, um entusiasta da vingança. Acho que a vingança é a única glória possível do fraco. Se partir pra cima de cara aberta, frente a frente, o fraco apanha. Sistematicamente, o fraco apanha, tenha ele razão ou não. Numa sociedade injusta, restam ao fraco poucas atitudes. A vingança inescrupulosa é uma delas. No escuro e por trás, sem qualquer traço de hombridade. Bem executada, a vingança é uma ação que não se restringe ao agressor. É uma ação contra o mundo. Quem se vinga de alguém tem a sensação de estar colocando ordem na casa. A sensação de ser um paladino da justiça, condão inconteste da moralidade. Enfim, a vingança tem o sabor da justiça que tarda, mas não falta. Que fique claro, eu repito, nunca me vinguei. É que tenho uma memória de formiga para fatos, fisionomias e nomes próprios. Dificilmente consigo me lembrar de qualquer data, evento ou conversa. Se alguém me pergunta quantos anos eu tenho, prefiro fazer o trocadilho infame do ânus e responder “um só” a ter que procurar pela data de nascimento na minha carteira de identidade. Cultivo um hábito diário que simplesmente apaga as coisas da minha memória. E, para a pessoa que se esquece de tudo, perdoar é fácil. Eu sempre perdoei por questão de esquecimento. Mas existem certos eventos que ficam indelevelmente gravados na memória do sujeito. No meu caso, um evento. Unzinho só. Uma agressão despropositada, inusitada e especialmente humilhante. Minha lembrança conserva nítidos o cabelo, as roupas, a voz e a atitude do agressor. Nada, meus amigos, nada me escapa. Dos pormenores, sei de todos. Eu poderia narrar, com precisão cirúrgica, toda a escalada de eventos que criou em mim este desejo louco e incontrolável de vingança. Desejo de vingança planejada, maleficamente empreendida na calada da noite. Já se vão dois anos que espero para fazê-lo. Gosto da certeza de que o agressor se esqueceu completamente de mim. Outro dia, contei para um amigo, seco: “Chegou a hora. Vou me vingar.” Ele protestou, bem naturalmente. “Já se passaram dois anos!” E quando eu disse “exatamente por isso”, ele instruiu que eu deixasse isso de lado e seguisse a minha vida. Assim, desse jeito. “Ah!”, eu disse irritado, “Não faço concessões tão facilmente.” “Por que não?” “Porque a hora é agora. Porque o prato está frio. E porque eu estou pronto.” Convenhamos, fosse a minha intenção submeter a idéia ao escrutínio da sensatez, talvez viesse a concluir que o melhor seria desistir. Resignar-me e seguir a vida alegremente. Nunca! Faço a mais absoluta questão de experimentar o gosto amargo, o tal aftertaste da vingança. É um compromisso que tenho para comigo. Um compromisso inadiável, pelo bem exclusivo do meu orgulho. *** O alvo da vingança é um sujeito inegavelmente louco. Um portador de necessidades especiais cuja família foi negligente em todos os sentidos. Não diagnosticaram o seu evidente comprometimento mental, e agora ele vive solto por aí, passando-se por pessoa sã e aterrorizando a sociedade. Não sei o seu nome, nunca me interessei pelo seu nome. Mesmo depois de sofrer dois ataques absurdos à minha integridade moral e física, contentei-me em descobrir o número do seu apartamento. E com o número do apartamento, descobri a vaga. E com a localização da vaga, descobri o carro. E com a identificação do carro e um molho de chaves no bolso, descobri a vingança perfeita. Diz o ditado chinês que “aquele que busca a vingança deve preparar duas covas: uma para seu inimigo e uma para si mesmo”. Preparei a do meu inimigo. Diligentemente, estou preparando a minha. Estou pronto para aceitar todas as conseqüências. Estou focado. Porque é chegada a hora da desforra. (...) Terça-feira, Agosto 07, 2007
QUE PENA QUE DÁ DOR NAS COSTAS O desemprego é bom. Você faz o que quer, do jeito que gosta. Suas dez horas de sono estão sempre garantidas. Seu almoço é leve: as verduras são abundantes e os legumes, saudabilíssimos. Você dispõe de um tempo ocioso tal, que dá pra ir ao sacolão, escolher, pechinchar, lavar, descascar, picar, refogar, servir, comer e dormir... Seu corpo fica sadio. O óbvio. Você joga cinco peladas por semana e, como falta dinheiro para a gasolina, caminha as caminhadas mais longas e extenuantes. Eventualmente, você pega uma piscina à tarde e toma sol. Uma vez desempregado, você fica bronzeado. Você não tem que fazer nada. Você pode fazer o que quiser. É bom para o corpo e é excelente – excelente mesmo – para a cabeça. É um dos melhores exercícios criativos. Você define tudo, decide tudo, imagina tudo: quando é dia de semana, quando é fim-de-semana, quando é feriado, quando é carnaval, quando é dia de Tiradentes. Você não obedece às ordens absurdas de ninguém em troca de dinheiro e, desta forma, não negocia em hipótese alguma o afrouxamento dos seus valores morais, espirituais ou atávicos. O cidadão à toa é, sobretudo, um cidadão mais consciente. Melhor informado. Assiste a edições de diversos telejornais e acompanha religiosamente todos os programas de esporte. A vida do desempregado é tão boa, mas tão boa, que chega um momento em que ele decide trabalhar apenas no tempo livre. Mas não se engane. A rotina do desempregado requer um rigor de sinfônica austríaca. Tem que ser rigorosamente improdutiva, desmotivada, auto-indulgente. E isso exige muito tempo e esforço. Cansa demais. Quer saber a verdade? Às vezes, o desempregado precisa “descansar” do desemprego. Do contrário, fica muito isolado e se farta de si mesmo, adquirindo uma antipatia patológica da própria personalidade. O desempregado não gosta de si próprio. (Este o aspecto mais esotérico da questão toda.) É bonito, inteligente, bronzeado e sarado. Mas é infeliz. A atitude do desempregado às vezes beira o cinismo: é ele quem vive melhor e é ele a mais reclamar da vida. Motivos? Razões? Explicações? Não tem. Recentemente, me contrataram e eu fiquei em pânico durante duas semanas. E é. O trabalho geralmente pressupõe a convivência forçada com um monte de gente que você nunca queria ter conhecido. O banheiro... Que horas Fulaninho faz pipi, que horas Beltraninha faz o número dois. Trabalhar é das atividades mais constrangedoras que há. Não se discuta. O desemprego, ao contrário, é muito bom. O desemprego é mais que bom: é “sobrenaturalmente delicioso”. É chique. E como tudo que é chique nesta vida, passa rápido demais. Quando você viu, pluft!, você já está atrás de uma mesa num escrotório. Sim, meus amigos, o desemprego é uma efeméride. Escapa por entre os dedos de uma hora para outra, completamente fugaz. E sabe por quê? Sabe? Porque a incompetência de quem gosta de trabalhar é sempre muito maior do que a vontade dos preguiçosos em continuar com as pernas para o ar. Simples assim. Simples assado. Sexta-feira, Julho 27, 2007
Tenho certeza que chic é a palavra mais xique da língua. Nem tanto por sua acepção mais comum, mas porque chique fica xic de qualquer jeito. (Mesmo que, em português, o jeito certo de se escrever chique seja chique.) (Pelo menos de acordo com o Word, é chique.) Chique adapta-se formalmente com desenvoltura de bailarina. É ágil. Xic se camufla, agrega; aparece de milhões de jeitos, ao sabor do interlocutor. Sujeito diz: - xisque. E é bacana. (Bacana é outra palavra bacana, embora não possua o glamour suíno do chique.) Sujeito diz: - tique. - chiquerrésimo. - xictimais. - chico. - xiquitiu!!! É muito legal mesmo. (Legal mesmo eu já não gosto. É pobre e composto. É prolixo. Come espaço. É inútil.) É xik. É massa. (Massa... hmmm... massa...) A variedade de nuances é notória, como notório é o efeito do thc em quem escreve. Segunda-feira, Junho 18, 2007
Queridões, Depois de dois anos desempregado, enfim alguém teve a idéia genial de me contratar. Estou, pois, de volta ao escrotório, em jornada fixa de 4 horas diárias. Em breve, escrevo nesta joça detalhando os aspectos sentimentais da coisa toda. Até. Sexta-feira, Agosto 19, 2005
Uma vez que me encontro num desemprego dos mais sentimentais, considero de bom tom vir a público informar aos desinteressados leitores que, não tendo mais escrotório onde realizar gestões utilíssimas ao povo todo e também a seus adjacentes, acabou-se por ora o impulso juvenil de aqui publicar reminiscências quaisquer. Obrigado por, a princípio, não retornar. Terça-feira, Julho 19, 2005
AY, MI DIOS, ENGORDÉ Nesta Data Querida vai fazer três apresentações no Chile com texto traduzido para o espanhol. Parabéns a toda a equipe. Para quem foi - ou não foi - um trechinho. "Erre – Pero nosotros vinimos, Antonieta. ¡y la fiesta está buenísima! Vamos a hacer lo siguiente: ¿por qué no conversamos un poco sobre nosotros? Apenas nos conocemos. Rosa – Pero yo ya estoy conversando, Erre... Erre – Por ejemplo, tengo un amigo que se llama Ache. Rosa (parando de llorar) – ¿Cómo? Erre – Ache. Él trabaja aquí cerca, en un club nocturno de travesti. Rosa – ¿De travesti? Erre – En un club nocturno de travesti. Ache tiene un novio, un moreno grandote, de esos enormes, que se acuestan encima tuyo y sientes el peso. (Se entusiasma y se sienta en una silla, demostrando) Bueno, un día, mi amigo estaba atendiendo a un japonesito que trabaja en el Mercado Central, cuando llegó el negro. Cuando vio a la novia con otro, el tipo saco un cuchillo y atacó al japonesito. ¡Veinte puñaladas! Salió sangre para todos lados. Y el pobre japonesito... murió. Rosa – ¿Murió? Erre – (Ríe, nervioso) Murió, Antonieta, ¡murió! Entonces, yo pienso: uno no conoce a las personas para nada. ...para nada. Rosa – No conoce, no conoce..." Quarta-feira, Julho 13, 2005
O CÔCO Não existem limites para a falta de bom senso. Quanto mais absurda uma pessoa é, mais ela quer que o mundo inteiro conheça detalhes da sua vida fracassada. As pessoas que se dão apelidos, por exemplo. O que pode ser mais fracassado do que se dar um apelido? “Todo mundo me chama de Márcio. Que droga. Wolverine seria bem mais legal que Márcio...” Veja o caso real de Lestat: um alagoano de cabeça chata e orelhas de abano que, por causa da pele muito branca, dos longos cabelos negros e da indumentária igualmente negra, resolveu se auto-intitular o “Tom Cruise com caninos avantajados”. É demais. Você olha o perfil do camarada e percebe de imediato que faltam ao Lestat alagoano praticamente todas as características que poderiam alçá-lo à condição de sósia de um vampiro culto e, sobretudo, bem aparentado como é o personagem de Ann Rice. Mas ele não se importa. O Lestat alagoano fica lá, no meio do sertão escaldante, posando de mau para as fotos do Orkut e olhando para os esparsos cactos com cara de “vou chupar seu sangue”. Não. Não dá pra aceitar esse tipo de comportamento. É penoso conceber um sujeito que, ao ser apresentado numa mesa de bar, toma a frente e diz: “Prazer, eu sou o Brad.” “Brad?” “É. Por causa do Brad Pitt. Eu pareço com ele, não pareço?” “...” “E eu sou o Stephen. Dizem por aí que sou tão inteligente quanto o Stephen Hawking.” “Prazer, Stephen Hawking...” Olha, se é assim, acabou toda a graça dos apelidos. Nunca mais vai mais haver um Cabeção, um Mantena, um Farrapo, um Zoiúdo. E não tenho opção senão constatar que, mais uma vez, a convivência humana foi rebaixada ao patamar da idiotice; o patamar daquela seriedade babaca que está tomando conta de tudo. ”Por quê que o Alberto está virando a cara pra mim?” “Porque você fica chamando ele de Alberto. Isso é falta de respeito. Ele quer ser chamado de Batman.” “Mas ele não parece o Batman.” “Mas ele QUER ser o Batman!” Bom, ainda que eu discorde dessa lamentável tendência, acho que, se for assim mesmo, vocês devem desistir dessa bobagem de me chamar de Lessa. Meu nome agora é Francisco Cuoco. E não abro. “Prazer, eu sou o Cuoco.” “O Côco?” “O CU-OCO! CU-OCO, caralho!” |